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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

CORREIO MFC BRASIL 279



A crise que grassa pelo mundo afora é advertida, predominantemente, como crise econômica. Mas esta é uma visão redutiva da dimensão complexa da crise global na qual estamos imersos. No nosso quotidiano advertimos que, mesmo tendo o necessário ou até um pouco mais para viver dignamente, não estamos satisfeitos, nem contentes. Por exemplo, a falta de segurança afeta a nossa tranquilidade! A perspectiva de um futuro incerto para nossos filhos nos deixa preocupados!

COM A CRISE GLOBAL, ASSOMA A QUESTÃO MORAL
*Giuseppe Staccone

Giuseppe Staccone

A
 produção e o consumo de bens materiais não bastam para alicerçar o bem-estar e a felicidade dos seres humanos. No avanço do processo de humanização chegamos ao patamar histórico, não consolidado, do “reconhecimento de todos por todos”! De fato, nós queremos o reconhecimento da nossa dignidade humana. Da nossa liberdade humana. Das nossas potencialidades humanas...

Nós, de forma mais ou menos consciente, buscamos a realização da nossa “dimensão” humana, de pessoas iguais e livres numa sociedade justa. Cada um de nós quer contar/valer na sociedade e não nos contentamos com ser, apenas, um número a ser contado ou uma unidade a ser catalogada.

Na sociedade do “capitalismo doentio”, em que vivemos, somos encaminhados, com doses maciças de publicidade, a viver como “indivíduos consumidores”! Os indicadores que mais contam, e dos quais mais se fala em nosso mundo globalizado, são os indicadores econômicos. Uma sociedade, qualquer sociedade, é avaliada pelos indicadores econômicos, e não por outros indicadores, que seriam mais complexos e mais indicativos da “qualidade de vida humana” que as pessoas vivem realmente.

Ao consumismo se sacrificam a identidade pessoal, a capacidade crítica de avaliação do que é bom ou ruim, justo ou injusto, necessário ou supérfluo; enfim, imola-se o discernimento pessoal que é o fundamento da liberdade e da dignidade da vida humana. Tudo se sacrifica para buscar uma “satisfação” imediata, fundada na posse e/ou no consumo de bens, materiais ou imateriais que sejam.

Junto ao consumismo, em nossas sociedades avulta o gigantismo da corrupção dos indivíduos e das instituições. No nosso mundo corrompido valem, sempre menos, as capacidades e o preparo das pessoas, pois os fatores de avanço econômico e social se prendem, sempre mais, aos “laços” familiares ou associativos, ao clientelismo, à militância política, à ligação com “máfias” ou agremiações poderosas...

Está patente que o crescimento dos consumos não ajudou a edificar sociedades mais reguladas e mais justas! Antes, fez emergir vícios e injustiças que favorecem a corrupção dos costumes e das leis, o oportunismo, a deslealdade e a desonestidade. Difunde-se, ao mesmo tempo, o ceticismo ético que afunda o prestígio dos valores necessários para cimentar uma justa convivência social e política.

Nesta situação assoma a “questão moral” como marco iniludível que desafia a modificar e renovar nossas vidas pessoais e nossas sociedades. A ética, de fato, nos questiona sobre o ponto essencial da convivência em sociedade: se damos a cada um aquilo que lhe é devido como ser humano! A democracia que adotamos está, por sua vez, fundada no valor da pessoa humana. É sim um conjunto de regras procedimentais, mas tem como objetivo favorecer a convivência harmoniosa entre todos os cidadãos, superando os conflitos com medidas em benefício do bem comum.

O desafio nos colhe no estádio avançado de uma “crise” global, não somente econômica, mas ecológica e de relações humanas, de valores e de atitudes associais, que pode destruir a nossa própria possibilidade de sobreviver como espécie humana. Disto nasce a urgência de mudanças profundas e inovadoras nas nossas atitudes mentais e práticas.

*Giuseppe Staccone é Italiano, graduado em Filosofia doutor em Teologia e em Letras por universidades romanas, trabalhou cerca de 20 anos no Brasil, antes na Pastoral das CEBs, na diocese de Viana, MA, depois como professor de Filosofia Política na Universidade Católica de Pernambuco e no ITER. Dedicou-se muito à Filosofia de Gramsci, à Ética e à Filosofia da Religião. Autor de vários livros e muitos artigos.

Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do MFC.

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